De 03 deputados a apenas 01.
Lagarto voltou a discutir uma velha questão depois das urnas de 2026: quanto dos votos destinados à Assembleia Legislativa permanece efetivamente representando o município?
Votar em um candidato de outra cidade não é crime, nem pecado. O eleitor é livre para escolher quem considera melhor para representá-lo. O debate, portanto, não está na liberdade individual do voto, mas no efeito coletivo que a distribuição dos votos produz sobre a representação política de Lagarto.
Os números das últimas eleições mostram uma mudança significativa.
Em 2014, Lagarto conseguiu eleger três deputados estaduais com forte votação no município: Valmir Monteiro, com 18.793 votos; Goretti Reis, com 12.184; e Gustinho Ribeiro, com 5.633. Os três foram eleitos para a Assembleia Legislativa de Sergipe.
Quatro anos depois, em 2018, a cidade novamente conseguiu eleger dois representantes: Ibrain Monteiro, que recebeu 15.639 votos em Lagarto, e Goretti Reis, com 12.173.
Em 2022, mais uma vez dois candidatos ligados eleitoralmente a Lagarto chegaram à Assembleia: Áurea Ribeiro, com 10.093 votos no município, e Ibrain de Valmir, com 8.915.
Já em 2026, o cenário mudou.
Ibrain de Valmir foi reeleito deputado estadual com 23.314 votos em todo Sergipe, sendo 14.215 somente em Lagarto. Ele foi eleito pelo quociente partidário. (
Mas outros nomes também receberam uma parcela expressiva dos votos lagartenses.
A ex-prefeita Hilda Ribeiro foi a candidata a deputada estadual mais votada no município, com 15.194 votos, correspondentes a 24,33% dos votos válidos locais. Apesar da votação, terminou como suplente em razão do resultado estadual da federação. Em Sergipe, somou 28.706 votos.
Matheus Corrêa recebeu 7.549 votos em Lagarto, enquanto Josivaldo Alves Santos obteve 1.842. Já Dra. Catarina, natural de Lagarto, registrou 206 votos no município. Somados, Hilda, Ibrain, Matheus, Josivaldo e Catarina alcançaram 39.006 votos em Lagarto.
O número chama atenção quando comparado ao total de 61.065 votos válidos para deputado estadual registrados no município. Isso significa que esses cinco nomes concentraram aproximadamente 63,9% dos votos válidos destinados à Assembleia em Lagarto.
Os demais candidatos somaram aproximadamente 22.059 votos, cerca de 36,1% dos votos válidos.
O que mudou em relação às eleições anteriores?
A comparação histórica é reveladora.
Eleição
Representantes de Lagarto eleitos para a Alese
2014
Valmir Monteiro, Goretti Reis e Gustinho Ribeiro
2018
Ibrain Monteiro e Goretti Reis
2022
Áurea Ribeiro e Ibrain Monteiro
2026
Ibrain de Valmir
Os números mostram que Lagarto saiu de três representantes eleitos em 2014 para um em 2026.
Isso não significa que o eleitor tenha obrigação de votar em candidatos do próprio município. Tampouco significa que votar em candidatos de outras cidades seja responsável, por si só, pela redução da representação local.
A eleição é mais complexa.
Mas os números permitem levantar uma pergunta legítima sobre a estratégia política da cidade: até que ponto a pulverização dos votos contribui para diminuir a quantidade de representantes de Lagarto na Assembleia?
A política como “feira”?
É nesse ponto que surge a expressão utilizada por críticos da política local: a chamada “feira dos votos”.
A ideia é questionar situações em que lideranças políticas apresentam determinada quantidade de votos como moeda de negociação com candidatos e grupos políticos.
Não é possível afirmar, apenas pelos resultados eleitorais, que determinado apoio tenha sido comprado, negociado ou condicionado a benefício pessoal. Isso exigiria prova específica e documentação.
Mas o resultado eleitoral permite observar outra coisa: milhares de votos de eleitores lagartenses foram distribuídos entre dezenas de candidatos, enquanto apenas um candidato do município conseguiu transformar sua votação em uma cadeira na Alese.
Em outras palavras: o eleitor continua tendo liberdade para votar em quem quiser, mas a soma dessas escolhas produz consequências para a representação política da cidade.
E os números de 2026 mostram isso de maneira bastante clara.
Hilda teve mais votos que Ibrain em Lagarto, mas não levou a cadeira
Um dos dados mais simbólicos da eleição é justamente o resultado de Hilda Ribeiro.
Ela recebeu 15.194 votos em Lagarto, contra 14.215 de Ibrain. Ou seja, Hilda foi 979 votos mais votada no município.
Ainda assim, Ibrain foi eleito e Hilda terminou como suplente.
A explicação está no sistema proporcional: a eleição para deputado estadual não é decidida simplesmente pelo candidato mais votado em cada município. As vagas são distribuídas considerando os votos obtidos pelos partidos e federações e os votos individuais dos candidatos.
Por isso, uma votação expressiva em determinado município não garante, sozinha, uma cadeira na Assembleia.
De três para um
A fotografia eleitoral de 2026 deixa um dado objetivo para o debate público de Lagarto.
2014: 3 eleitos.
2018: 2 eleitos.
2022: 2 eleitos.
2026: 1 eleito.
Ibrain de Valmir continuará representando Lagarto na Assembleia Legislativa, mas a cidade terá, a partir da próxima legislatura, apenas um deputado estadual eleito diretamente identificado com o município.
A questão que fica não é sobre obrigar o eleitor a escolher determinado candidato.
É sobre planejamento político, capacidade de articulação e, principalmente, sobre o que as lideranças locais pretendem fazer com os milhares de votos que conseguem mobilizar.
Porque o voto pertence ao eleitor.
Mas a representação política, quando o resultado das urnas é conhecido, passa a ser uma questão coletiva.
E talvez a pergunta mais importante para Lagarto depois de 2026 seja justamente esta:

Quanto vale um voto individual — e quanto vale, para uma cidade, transformar milhares desses votos em representação política?
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